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Blog Destaque do Magia Gifs!

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2:42 PM





Não
Texto de Eduardo Baszczyn


"olhando o quarto, entre os cabelos caídos sobre o rosto,
ela procura os comprimidos. pelas gavetas.
nos armários. descalça, pés pretos, ela agora desobedece.
contraria a infância higienizada e protegida.
a meninice desinfetada. de chãos limpos.
pisos brilhantes. cheiro de pinho. a vida de regras.
de pode-não-pode. de coisas proibidas. a vida de nãos.
não solte as tranças. não fale com estranhos.
fique longe das tomadas. não deixe comida no prato.
não suje o vestido. não fale palavrão. não caia do balanço.
não ouça música alta. leia apenas os clássicos.
não bata no seu irmão. só coma coisas verdes.
não trepe sem casamento. não use drogas.
não responda seus pais. respeite seus professores.
não beba gelado



não saia sem blusa.
não tome o sol do meio-dia. faça o dever de casa.
não grite com sua mãe. não coma porcarias.
cumprimente seus tios. não ponha a mão na boca.
não aceite carona. esqueça que há vida de madrugada.
não mostre a língua. não deixe a camisinha.
não fale de boca cheia. não durma até tarde.
não aponte. não chore. não tome remédios sem receita.
não mais que um comprimido. não mais que dois. três. quatro.
não mais que dez. não vomite sobre o tapete. não morra.
idiota, não morra."




Rabiscado por Andarilha descalça

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12:06 AM


PETER PAN

Alguém aí pode me dizer onde eu encontro o mala sem alça do Peter Pan? Será que alguma companhia aérea tá operando vôos para Neverland? Talvez ele nem more mais lá, talvez tenha se mudado pra Nova York, talvez pra Paris, talvez pra Dubai (não é lá a nova terra da fantasia, afinal?) já me ajuda se eu encontrar a Siininho, acho que ela pode me dar o endereço dele, pelo menos o celular!

Se alguém souber, me diz, me passa um testemonial pelo orkut, me manda por e-mail, me diz onde eu encontro esse cara!! Preciso muito levar um papo sério com este tal de Peter! Quem este fulano pensa que é? Como assim inventa uma história de que a gente ser eternamente criança é a coisa mais bacana do mundo e depois some? Nós que caímos na sua conversinha fiada é que temos que pagar o pato? Dá pra eu procurar o PROCON e denunciar Mr. Pan por propaganda enganosa?

Sabe seu Peter, não vejo a hora de encontrá-lo para lhe dizer umas boas verdades! Tenho fatos, provas, argumentos! Mostro por a mais b que sua teoria está errada. Ser criança a vida toda é péssimo, um tremendo atraso de vida, o melhor que temos a fazer é crescer, crescer rapidinho, aprender logo como a banda toca, fazer a coisa certa, buscar o resultado, é assim que os adultos fazem. Talvez a sua teoria funcione aí para sua negas de Neverland, mas aqui, no mundo real...

Confessa, você só queria mesmo era faturar com essa conversa pra boi dormir. E bem que conseguiu, nesse ponto sou obrigada a tirar meu chapéu pra você, até hoje há quem compre esta sua "auto-ajuda" barata. Eu mesma comprei, e como me arrependo! Mas estou a sua procura, com o meu produto na mão, coloquei tudo numa caixinha pra te devolver: a inocência, a crença de que todas as pessoas são bacanas e querem o meu bem, a idéia de que um sorriso interrompe uma guerra, a necessidade constante de afeto, a vontade de abraçar, de rir, de brincar mesmo às segundas-feiras, os sonhos enormes, as bochechas rosadas de tanto dançar sozinha, a naturalidade pra dizer "eu gosto tanto de você", a vontade de ouvir "eu também". Não quero nada disto mais, quero meu dinheiro de volta!

Ainda o encontro senhor Peter Pan! Provavelmente você está disfarçado, escondido, estou certa de que não sou a única na sua cola, deve mesmo haver um exército de pessoas enganadas como eu atrás de você, seu baixote de roupinha verde! Não desisto da minha procura, Enquanto isto, sigo minha vida carregando meu pacotinho...

Luciana Silva


Rabiscado por Andarilha descalça

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2:28 PM



VISTA CANSADA

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à
sua volta como se a visse pela última vez.
Pela última ou pela primeira vez?
Pela primeira vez foi o outro escritor quem disse.

Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente.

Olhar de despedida de quem não crê que a vida continua.
Não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Fugiu, enquanto pode, do desespero que o roia – e daquele tiro brutal.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta.

Um poeta é só isso: um certo modo de ver.
O diabo, é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar.
Vê não vendo.
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver.
Parece fácil, mas não é.

O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade.

O campo visual da nossa rotina, é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta.
Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no
seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê.

Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall
do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo,
o mesmo porteiro. Dava-lhe bom dia e, às vezes,
lhe passava um recado ou uma correspondência.
Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia?
Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado,
o porteiro teve que morrer. Se um dia, em seu lugar estivesse uma girafa,
cumprindo o rito, pode ser que também ninguém desse por sua ausência.
O hábito suja os olhos, lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver?
Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que um adulto não vê.
Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.

O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto,
ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho.
Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas.
Nossos olhos se gastam, no dia-a-dia, opacos.
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.



(Oto Lara Resende)


Rabiscado por Andarilha descalça

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3:49 PM

Um Deus que sorri
Rubem Alves

Eu acredito em Deus!!
Mas não sei se o Deus em que eu acredito,
é o mesmo Deus em que acredita o balconista,
a professora, o porteiro, o bispo ou pastor….
O Deus em que acredito não foi globalizado.
O Deus com quem converso não é uma pessoa,
não é pai de ninguém.
É uma idéia, uma energia, uma eminência.
Não tem rosto, portanto não tem barba.
Não caminha, portanto não carrega um cajado.
Não está cansado, portanto não tem trono.
O Deus que me acompanha não é bíblico.
Jamais se deixaria resumir por dez mandamentos,
algumas parábolas e um pensamento que não se renova.
O meu Deus é tão superior quanto o
Deus dos outros, mas sua superioridade está na compreensão
das diferenças, na aceitação das fraquezas e
no estímulo à felicidade.
O Deus em que acredito me ensina a guerrear conforme
as armas que tenho e detecta em mim a honestidade dos atos.
Não distribui culpas a granel: as minhas são umas,
as do vizinho são outras. Nossa penitência é a reflexão.
Ave Maria, Pai Nosso: isso qualquer um decora sem saber o
que está dizendo.Para o Deus em que acredito,
só vale o que se está sentindo.
O Deus em que acredito não condena o prazer.
Se ele não tem controle sobre enchentes, guerrilhas
e violência, se não tem controle sobre traficantes,
corruptos e vigaristas, se não tem controle sobre a miséria,
o câncer e as mágoas, então que
Deus seria ele se ainda por cima condenasse o que nos resta:
o lúdico, o sensorial, a libido que nasce com toda criança
e se desenvolve livre, se assim o permitirem?
O Deus em que acredito não me abandona, mas me exige mais
do que uma flexão de joelhos e uma doação aos pobres:
cobra caro pelos meus erros e não aceita promessas performáticas,
como carregar uma cruz gigante nos ombros.
A cruz pesa onde tem que pesar: dentro.É onde tudo acontece e
Este é o Deus que me acompanha.Um Deus simples.
Deus que é Deus não precisa ser difícil e distante,
sabe tudo e vê tudo.
Meu Deus é discreto e otimista.
Não se esconde, ao contrário, aparece principalmente
nas horas boas para incentivar, para me fazer sentir o
quanto vale um pequeno momento grandioso:
de um abraço numa amizade, uma música na hora certa, um silêncio.
O Deus que eu acredito também não inventou o pecado,
ou a segregação de credo.
E como ele me deu o Livre-Arbítrio, sou eu apenas
que respondo e responderei pelos meus atos.


Rabiscado por Andarilha descalça

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10:52 PM

Acaso-poesia

Os antigos, alguns sábios que ainda perduram como sábios,
Diziam sobre a poesia: um poeta não nasce com o dom,
Apenas com uma vocação... Hoje achamos que já desvendamos
Este divino ou maligno enigma... Todos os poetas, sobretudo os malditos,
Não se achavam iluminados nem que são inspirados por deuses
Como pensava Sócrates ou Platão sobre os rapsodos de Homero.
Hoje, aqueles que ainda erguem sua espada nessa guerra insalubre,
De transformar o acaso da existência em algo mais belo
Não admitem ser um ventríloquo nas mãos de alguma entidade do além.
A poesia é uma arte, sim, uma bela arte. Para tal arte se dar
Faz-se necessário a aptidão, que não se trata de herança cósmica
Ou espiritual. Muitos poetas são dignos de honra e de sustentar esta bandeira
Que nos faz crer que a vida, apesar de ser enfadonha, sem objetivo nobre
Pode ser menos dolorida, com a ilusão que nos pinta a poesia, com as suas
Imagens criativas, e, acima de tudo indispensáveis.
Ainda vale frisar, que não é para qualquer um poeta ser.
É preciso ser “crédulo,” e é aí que reside um belo paradoxo, pois não existe
Poeta crédulo de fato. É esta descrença que lhes fazem crer
Na estética e na melodia que há nas palavras quando são dispostas
Em verso e em prosa.
Sendo um acaso, é que se torna lírica e intrigante a fonte que brota poesia.
O espanto, a contestação do inevitável... Morte... Poesia.
O óbvio visto sem medo, sem pudor da devoção e da adoração do nada... Poesia.
A crença... A fé... A alegria... O sexo... A vida... Isso acaso-poesia.


evan do carmo


Rabiscado por Andarilha descalça

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10:44 PM

"DESTRALHE-SE"
Carlos Solano


-"Bom dia, como tá a alegria"?, diz dona Francisca, minha faxineira rezadeira, que acaba de chegar.
-"Antes de dar uma benzida na casa, deixa eu te dar um abraço que preste!" e ela me apertou.
Na matemática de dona Francisca, "quatro abraços por dia dão para sobreviver, oito ajudam a nos manter vivos, 12 fazem a vida prosperar".
Falando nisso, "vida nenhuma prospera se estiver pesada e intoxicada".
Já ouviu falar em toxinas da casa?

Pois são objetos e roupas que você não gosta ou não usa, coisas feias ou quebradas, velhas cartas, plantas mortas ou doentes, recibos, jornais e revistas antigos, remédios vencidos, meias e sapatos estragados...
Ufa, que peso!
"O que está fora está dentro e isso afeta a saúde", aprendi com dona Francisca.
- "Saúde é o que interessa. O resto não tem pressa"!, ela diz, enquanto me ajuda a 'destralhar', ou liberar as tralhas da casa.
O 'destralhamento' é uma das formas mais rápidas de transformar a vida e pode muito bem ajudar outras terapias.
"A saúde melhora, a criatividade cresce e os relacionamentos se aprimoram", também ensina o feng shui, com a delicadeza própria das artes orientais.
Para o feng shui, é comum se sentir cansado, deprimido ou desanimado em um ambiente cheio de entulho, pois "existem fios invisíveis nos ligando àquilo que possuímos".
Outros possíveis efeitos do acúmulo e da bagunça: sentir-se desorganizado, fracassado e limitado, aumento de peso, apego ao passado...
"No porão e no sótão, as tralhas viram sobrecarga; na entrada, restringem o fluxo da vida; empilhadas no chão, nos puxam para baixo; acima, são dores de cabeça; sob a cama, poluem o sono".
Então... Se dona Francisca falou e o feng shui concordou, nada de moleza!
-"Oito horas para trabalhar, oito para descansar, oito para se cuidar!", diz a comadre.
-E nada de limpar só por onde o padre passa...

"DESTRALHE-SE"

Perguntinhas úteis na hora de liberar os armários:
Por que estou guardando isso?
Será que tem a ver comigo hoje?
O que vou sentir ao liberar?
E vá fazendo pilhas separadas de doar, vender e jogar fora.
Ponha um prato com carvão no quarto (tira os cheiros).
Deixe um ramo de boldo em um copo d'água para purificar.
Passou de bom!
Para destralhar mais, livre-se de barulhos e luzes fortes, cores berrantes, odores químicos, revestimentos sintéticos, libere mágoas, pare de fumar, diminua o uso da carne, termine projetos inacabados.

"Se deixas sair o que está em ti, o que deixas sair te salvará.
Se não deixas sair o que está em ti, o que não deixas sair te destruirá", arremata o mestre Jesus, no evangelho de Tomé.

"Acumular nos dá a sensação de permanência, apesar de a vida ser impermanente", diz a sabedoria oriental.
O Ocidente resiste a essa idéia e, assim, perde contato com o sagrado instante presente.
Dona Francisca me conta que "as frutas nascem azedas e, no pé, vão ficando docinhas com o tempo".
-A gente deveria de ser assim, ela diz.
-"Destralhar ajuda a adocicar."


Rabiscado por Andarilha descalça

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11:01 AM

Velho olhando o mar
Affonso Romano de Sant'Anna




Meu carro pára numa esquina da praia de Copacabana às 9h30m e vejo um velho vestido de branco numa cadeira de rodas olhando o mar à distância. Por ele passam pernas portentosas, reluzentes cabeleiras adolescentes e os bíceps de jovens surfistas. Mas ele permanece sentado olhando o mar à distância.

O carro continua parado, o sinal fechado e o estupendo calor da vida batia de frente sobre mim. Tudo em torno era uma ávida solicitação dos sentidos. Por isto, paradoxalmente, fixei-me por um instante naquele corpo que parecia ancorado do outro lado das coisas. E sem fazer qualquer esforço comecei a imaginá-lo quando jovem. É um exercício estranho esse de começar a remoçar um corpo na imaginação, injetar movimento e desejo nos seus músculos, acelerando nele, de novo, a avareza de viver cada instante.

A gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento. Me lembro que menino ao ver um velho parente relatar fatos de sua juventude tinha sempre a sensação de que ele estava inventando uma estória para me convencer de alguma coisa.

No entanto, aquele velho que vejo na esquina da praia de Copacabana deve ter sido jovem algum dia, em alguma outra praia, nos braços de algum amor, bebendo e farreando irresponsavelmente e achando que o estoque da vida era ilimitado.

Teria ele algum desejo ao olhar as coxas das banhistas que passam? Olhando alguma delas teria se posto a lembrar de outros corpos que conheceu? Os que por ele passam poderiam supor que ele fazia maravilhas na cama ou nas pistas de dança?

Me lembra ter lido em algum lugar que o inconsciente não tem idade. Ah, sim, foi no livro de Simone de Beauvoir sobre "A velhice". E ali ela também apresentava uma estatística segundo a qual por volta dos 60 anos poucos se declaram velhos; depois dos 80 anos, só 53% se consideram velhos, 36% acham que são de meia-idade e 11% se julgam jovens.

Não sei porque, mas toda vez que vejo um senhor de cabelos brancos andando pela praia penso que ele é um almirante aposentado. Às vezes, concedo e admito que ele pode ser também da Aeronáutica. Por causa disto, durante muito tempo, vendo esses senhores passeando pela areia e calçada, sempre achava que toda a Marinha e Aeronáutica havia se aposentado entre Leblon e Copacabana.

Mas esses senhores de short e boné branco que passam às vezes em dupla pelo calçadão, são mais atléticos que aquele que denominei de velho e, sentado na cadeira, olha o mar.

Ele está ali, eu no meu carro, e me dou conta que um número crescente de amigos e conhecidos tem me pronunciado a palavra "aposentadoria" ultimamente. Isto é uma síndrome grave. Em breve estarei cercado de aposentados e forçosamente me aposentarão. Então, imagino, vou passear de short branco e boné pelo calçadão da praia, fingindo ser um almirante aposentado, aproveitando o sol mais ameno das 9h30m até cair sentado numa cadeira e ficar olhando o mar.

Me lembra ter lido naquele estudo de Simone de Beauvoir sobre a velhice algo neste sentido: "Morrer, prematuramente, ou envelhecer: não há outra alternativa." E, entretanto, como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa." Cada um é, para si mesmo, o sujeito único, e muitas vezes nos espantamos quando o destino comum se torno o nosso: doença, ruptura, luto. Lembro-me de meu assombro quando, seriamente doente pela primeira vez na vida, eu me dizia: "Essa mulher que está sendo transportada numa padiola sou eu." Entretanto, os acidentes contingentes integram-se facilmente à nossa história, porque nos atingem em nossa singularidade: velhice é um destino, e quando ela se apodera de nossa própria vida, deixa-nos estupefatos. "O que se passou, então? A vida, e eu estou velho", escreve Aragon.

Meu carro, no entanto, continua parado no sinal da praia de Copacabana. O carro apenas, porque a imaginação, entre o sinal vermelho e o verde, viajou intensamente. Vou ter de deixar ali o velho e sua acompanhante olhando o mar por mim. Vou viver a vida por ele, me iludir que no escritório transformo o mundo com telefonemas, projetos e papéis. Um dia, talvez, esteja naquela cadeira olhando mar à distância, a vida distante.

Mas que ao olhar para dentro eu tenha muito que rever e contemplar. Neste caso não me importarei que o moço que estiver no seu carro parado no sinal imagine coisas sobre mim. Estarei olhando o mar, o mar interior e terei alegrias de nenhum passante compreenderá.




Rabiscado por Andarilha descalça

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6:40 PM

A Guerra das Borboletas
Nilton Bustamante


- Pega aquela azul! – grita em corrido som, um menino magricela e descalço.
Crianças explodiam em gritos sem a preocupação do silêncio. Não se importavam com o mundo. Aliás, o mundo para elas resumia-se naquele entusiasmo misturado pela aventura de serem competentes em suas caçadas, com as redes às mãos...
Num comércio pernicioso, homens que perderam a noção planetária (se é que algum dia possuíram) recrutavam crianças pelas habitações nas periferias das matas para caçarem borboletas. Usavam da destreza e da miséria dos inocentes.
Os pedidos chegavam de várias partes do país e do exterior. Os intermediários lucravam e não disfarçavam. A "doutrinação" feita pelos esquálidos ao pequeno exército era de tal maneira, que todos acreditavam ser tudo muito natural.
A natureza gemia com mais estes atentados.
E neste som de lamúria fez acordar um dos espíritos da floresta.
Atento passou a acompanhar os vôos coloridos daqueles pequenos seres em "disparadas" entre redes hostis. Angustiado borboleteava, sem asas, ao lado das delicadas mariposas em torcida rasgada para fuga... Os pequenos insetos de pura singeleza adentravam cada vez mais à mata, na tentativa da preservação da espécie.
Algo precisava ser feito. Chegou-se ao insuportável. Pior que o dano na primitiva natureza, era a corrosão na natureza humana daquelas crianças em formação.
O espírito guardião, teve a inspiração de polinizar os sonhos daqueles caçadores mirins. Todas as noites, visitava um a um. Deixava o pólen dos bons conselhos.
Percebia, o espírito guardião, que ainda havia tempo para a salvação não só das borboletas, mas dos pequenos irmãos. Tudo estava conjugado.
Numa dessas missões de "polinização", deparou-se com uma flor mau cuidada. Sua experiência na natureza sabia que poderia ser uma linda flor para o seu meio, se recebesse melhor atenção. Passou a "borboletear" os pensamentos do pequeno magricela que possuía pequenas manchas nos braços.
Certa vez o missionário, representante das boas causas, apresentou-se em sonho ao pequenino.
- Olá, pequeno caçador.
- Você me conhece? – perguntou admirado, o menino.
- Sim, claro. Suas caçadas são conhecidas.
- Bem, isso mesmo, eu caço borboletas - o menino abriu um sorriso de satisfação.
- Sei, e para quê? – contornando o assunto o bom espírito.
- Ah! para ganhar dinheiro. Os homens lá da cidade vêm para encomendar as borboletas, as cores, ...
- E o que você sente ao fazer esse trabalho?
- Eu gosto muito. Chego a ver em vez das borboletas, notas de dinheiro batendo asas. Prontas para pegá-las – respondeu tranqüilamente, o pequeno.
Uma dor de decepção invadiu o instrutor das luzes.
Pensou nos homens que tornaram-se cegos ao ponto de não distinguirem árvores, rios, animais, plantas, pessoas; somente o dinheiro que podem ganhar. Nada mais.
É o tiro assassino, é o fogo, é o mercúrio, é a erosão, é a poluição.
Devastação. Morte.
- Venha comigo, quero mostrar-lhe algo – ordenou ao menino.
Foi levado na presença de um homem, artista famoso, que fazia naquele momento um pedido de borboletas rosas, em extinção. Ao ser interpelado pelo espírito guardião, revoltou-se e respondeu secamente: - para que servem as borboletas?
– indicando sua enorme coleção que cobria toda a parede da sala principal da rica residência.
Sem mais nada a fazer ali, o guardião das borboletas e o menino retornaram, em silêncio, planando sobre a mata mais alta.
O menino notou que seu interlocutor tinha manchas nos braços, semelhantes às suas.
De súbito, abriu-se um clarão com um sem-fim de "insetos lepidópteros noturnos, crepusculares", borboletas, borboletas mil. Cores vistosas: amarelas, pretas, mescladas, brancas, azuis, transparentes; tonalidades do pincel divino. Um espetáculo regido por Deus. Podia-se dizer que o cenário era um sonho, mas um sonho com poucas borboletas rosas.
Notando a presença dos dois visitantes, logo os cercaram em delicada recepção de boas vindas.
O menino boquiaberto, recebeu "hóspedes" que se alternavam em pequenos pousos em suas mãos, cabeça, nariz... Foi levado para visitar as ninfas (crisálidas), conhecer todo o processo de criação e transformação. Aprendeu sobre a importância delas na polinização, fecundação, e continuidade da vida na natureza e seus ciclos.
De repente, as borboletas começaram a morrer aos milhares, presas em troféus da morte feitos de acrílicos, quadros, gavetas com alfinetes, ... Em velocidade terrível, em dimensão outra, as flores não recebiam os grãos de pólen, e também pereciam; não havendo mais as flores, deixaram de existir várias espécies de pássaros; deixando de existir os pássaros, uma grande quantidade de insetos cresceu incontrolavelmente e começou a devorar a floresta; não havendo mais a floresta, os rios secaram, os peixes morreram...; os homens padeciam esses horrores, e ao lembrar-se de sua família, logo viu que ela também não mais existia, nem pais, nem irmãos. Aqueles mesmos homens que faziam as encomendas dos tipos de borboletas para seus comércios, estavam secos, com suas notas de dinheiro nas mãos, em suas bocas. Caiam mortos. O dinheiro não mais havia significado ou importância. Entre os desgraçados, o artista famoso junto ao rodapé da parede que ostentava sua coleção. Ambos secos.
O menino magricela, aterrorizado, ainda teve tempo para perceber que as manchas na pele de seu amigo florestal, como as suas próprias, tornaram-se mais acentuadas.
Num sobressalto o pequeno "viajante" pulou da cama. Correu em direção do alçapão das borboletas da caçada de outros dias. Levou-o para fora de casa e libertou as coloridas mariposas que voavam atordoadas, mas livres.
Um grande alívio ao vê-las sumindo entre a mata. E seus pais vivos preparando o café da manhã...
No sono seguinte, recebeu um conhecido de última hora: o guardião das borboletas, que indagou ao menino:
- O que você ganhou ao soltar as borboletas?
- Consciência – respondeu o menino magricela, também sentindo-se livre.
E assim o guardião das borboletas pôde dormir o sono das crianças.




Rabiscado por Andarilha descalça

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8:00 AM

Lápis de Sombra

O último poeta
não tem satisfação a dar.
Escreve em transe de festa.
Sem ser Midas quer tocar
apenas a poesia,
para dela se compadecer.
Sua gravata borboleta,
a luz do lampião,
ou a janela sagrada,
o cercam de hera e de luz.
Faz cada verso
como se fosse o último. E é.
Navega poças, oceanos, cabarés.
Atravessa calçadas, continentes, paredes.
Saca do baú esqueletos
de rimas claras
ou de escuridão.
Alça vôo escarlate e chumbo
até alcançar o sentimento.
Escreve para o poeta que o lê,
porque é o poeta
que encontra o mundo,
o tempo,
olhares poéticos
que lêem a si e a poesia.
Namora a morte.
Sai do livro
para seguir a vida
e, ao partir,
anjos tocam-lhe harpas
e diapasão.
Não descobre mistérios,
que não os da poesia.
Vê lápis de sombra
pintando olhos de céu.
Pretendeu ser filósofo,
mas formou-se boêmio.
Ele, os gatos e a lua.


meriam lazaro


Rabiscado por Andarilha descalça

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11:05 PM

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai,
eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino,
que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde,
tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer,
o doce feito com leite condensado.


[...] E porque você quando sonha que eu estou passando
você para trás, transfere sua d.d.c. para
o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu
tivesse culpa de você ser assim tão subliminar.


[...] E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e
fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não
concorda porque é muito
meu chapa, e quando você se sente perdida
e sozinha no mundo você
se deita agarrada com ele e chora feito
uma boba fazendo um bico deste tamanho.


[...] E porque você é a única menina com uma flor que eu
conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você,
“Minha namorada”,
a fim de que, quando eu morrer, você se por
acaso não morrer também, f
ique deitadinha abraçada com Nounouse,
cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você
tem de ser a estrela derradeira, minha amiga
e companheira, no infinito de nós dois.


[...] e o meu coração, como quando você me disse que me amava,
põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no
meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se
enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos,
suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu
amor por você é feito de todos os amores que eu já tive,
e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei;
[...] – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo
porque você é uma menina com uma flor.


Vinicius de Moraes, trechos de :Para uma menina com uma flor.



Rabiscado por Andarilha descalça

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11:03 PM

Vou então à janela, está chovendo muito.
Por hábito estou procurando na chuva o
que em outro momento me serviria de consolo.
[...] Estou à janela e só acontece isto:
vejo com olhos benéficos a chuva,
e a chuva me vê de acordo comigo.
Estamos ocupadas ambas em fluir.
[...] A chuva cai não porque está precisando de mim,
e eu olho a chuva não porque preciso dela.
Mas nós estamos tão juntas como a água da chuva
está ligada à chuva.
E eu não estou agradecendo nada.
Não tivesse eu, logo depois de nascer,
tomado involuntária e forçadamente o caminho que tomei –
e teria sido sempre o que realmente estou sendo:
uma camponesa que está num campo onde chove.


Clarice Lispector


Rabiscado por Andarilha descalça

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7:35 PM

CARTAS A UM JOVEM POETA


"PRIMEIRA CARTA"



" Paris, 17 de Fevereiro de 1903


Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.

(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke"



Esta Primeira Carta do livro "Cartas a um jovem poeta",
foi traduzida por Cecília Meireles, retirados da edição :
"Cartas a um jovem poeta e Canção de Amor e morte
do porta-estandarte Cristovão Rilke", Editora Globo, 1983.


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6:56 PM

O Canto de um Rio em sua Vida
Adino Bandeira


Há dias ouvia o canto de um rio em sua vida.
Tanto que resolveu consultar o mar,
pai e mãe donde vêm e pronde vão todas as águas.
Perguntou-lhe do rio cantante e do que trazia.
“Alegrias e tristezas, mas felicidade ao fim do dia”.
Enigmático, enfiou os pés na areia onde
onda se bronzeia, molhou-se até quando não mais
podia e correu idéias por toda praia que se fez imaginar.
Lavou-se em essência e seguiu tranqüilo,
sereno como o fim da tarde.




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5:25 PM


CONTINUO SEM SABER DE MIM
Carla Dias


Estava nessa correria, tropecei, caí, levantei, sacudi a poeira e dei a volta pela sala, procurando bugigangas que arquivo na alma, enquanto falava com as paredes, reiterando o mantra: essa não sou eu.



Não sou a pessoa que encontro a cada manhã, o olhar enevoado, a rotina desprovida daqueles gracejos usuais, provocados pela vontade de pensá-la colorida; a rotina lírica, atrevida.



A ousadia me dispensou há tempos, pois até mesmo ela tem de se alimentar. E ando dando de comer a ela somente as raspas, os restos, a letargia. As esperas vãs.



Hoje um estranho me pediu informação sobre ônibus e, do nada, disse para eu não cortar mais os cabelos. Será que ele enxergou do lado contrário do espelho, alcançando o quando eu parecia mais certa, cabendo em mim, ainda que descabida de tudo? E, certamente, mais descabelada...


Dei a informação sobre o ônibus e ignorei os cabelos.

Antes que me esqueça de esclarecer: não era apenas sobre ônibus pra Lapa e cabelos cortados. O estranho disse que era recado de Iemanjá. E eu sorri da ironia... O que desejaria a rainha do mar de uma pessoa que mantém os pés no concreto há tanto tempo?

Há pessoas sensíveis nessas ruas e, às vezes, encontro alguma que me faz re-experimentar o passado e o trampolim para o futuro; desvendar delícias no presente. E a confusão amarga, mas depois se torna agridoce.

Estava zanzando, rodopiando sem destino pelo quarto. Sambei tristezas ancestrais; distraí mágoas com meio-sorrisos. Invadi o passado e trouxe de volta as lembranças de mim, quando pensava no amanhã como ele fosse um milagre certeiro: acordar, enxergar, tocar, experimentar.

No meu dentro, a rotina ainda tem seus momentos de excentricidade: flerta com distâncias, embarga mágoas; tem amor arisco, doce, tresloucado. Nessa rotina, os sabores se misturam, os perfumes também.


Assopro samambaias, balelas me inspiram verdades. E clamo para que precipícios cuspam frenesis e eu possa colhê-los feito buquê de noiva que foi lançado. Quero noivar com indecências, das que apimentam amor à beira da mesmice.


Meus erros me fortalecem, mas também me levam a ensimesmar. E lá no mais profundo de mim, necessito de gritos, tambores alucinados, noites a sós com as promessas de realização sendo cumpridas.

Há uma de mim que vive meu fora, e ela é cética, prática, medrosa. Há uma de mim que vive meu dentro, e ela não é, porque se transforma constantemente, com a mesma euforia dos sentimentos. Elas se sentam, lado a lado, parecem irmãs, mas brigam pela minha alma. E é justamente essa uma de mim, a que nasce dessa disputa, que busco reconquistar, porque ela tem flores nos cabelos, esperança no coração, música na alma, poesia nas veias.

A miscelânea de sensações me faz doer o estômago, ao mesmo tempo em que me acalma: ainda tenho jeito.



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11:03 AM

Homem: Convexo - côncavo
Maria Cristina Castilho de Andrade

Era um homem convexo. Sua imagem destacava-se na planície de margaridas e girassóis. Ali ficava toda tarde, sentado sobre os calcanhares, com o olhar perdido na imensidão. Sua idade era um acúmulo de décadas, e a vida ia passando, sem interromper, como as nuvens no ritmo do ar em movimento.

Observava-o de meus dias. Observava-me de suas horas, pois não sabia quantas faltavam. Eu supunha, ainda, que lhe restavam todos os dias.

Resolveu, quando julgou-me preparada, intro-duzir-me em seu álbum de recordações. A capa lembrava-me uma moldura antiga com foto da família reunida em almoço de festa.

Suas mãos trêmulas viravam as folhas secas, de coração úmido, da última para a primeira. Via a mãe, com colo de cantiga, a ninar o que restou dos sonhos, numa cadeira de balanço. Vi o pai, de olhar austero, marcado pelo acontecer dos anos, à espera de um braço que o sustentasse nos degraus finais. Encontrei lacunas entre os irmãos. Explicou-me que não voltariam, mas, com certeza, de que se veriam depois.

Detive-me nas expressões de riso. Em todas elas um fitar de olhos sem sorriso, percebendo que no próximo flash poderiam ser apenas melancolia.

Encontrei-o, numa página, menino. Sabia-o vestido de calças curtas a empinar uma enorme pipa, colocando nela todos os seus anseios. Vestira-se também, em outra época, de marinheiro. Buscava a ilha de Robison Crusoé.

Não lhes posso dizer que as páginas eram com-pletamente tristes, mas sim profundamente fortes.

Não se resumia naquele álbum de folhas acinzentadas. Fora mais. Fora muito mais. Fora um guerreiro que partira para a luta, levando nas mãos um ramo de lírio, e no coldre um botão de cravo vermelho. Fora um navegante que trouxera, nos cabelos, respingos de mistério. Fora um desbravador, que retornara trazendo um feixe de raios prateados.

Era um homem convexo. Nele, detinham-se borboletas, abelhas, avezinhas que fugiam do frio. Nele, parava a brisa, com gosto de amora madura. Nele, pairavam folhas recém-nascidas.

A voz cansada sussurrava melodias. Os passos lentos, trôpegos, acabavam por chegar às laranjeiras e pessegueiros floridos. Os olhos despiam-se da catarata e enxergavam atrás das cordilheiras...

Sem que me desse conta, tornou-se um homem côncavo. Em sua depressão brotaram hortênsias, quaresmeiras... Sua imagem se diluiu na planície outonal.

Hoje, quando abro janelas, não o vejo como antes. Procuro, inutilmente, sua silhueta. Vem, então, a saudade daquele que deixou seu contorno nas pétalas rosadas das terras alcalinas.

Homem convexo-côncavo..... Grande homem, homem por inteiro.


Rabiscado por Andarilha descalça